Netsarim ou Nazarenos

“Descoberta em Jerusalém de um vaso numa pedra com o símbolo dos Nazarenos no século.”

 

(Estudo baseado na pesquisa de Ray Pritz, da Hebrew University de Jerusalém)

Os “Nazarenos” – A História dos Seguidores de Yahushua, o Messias

 
1 – O OBJETIVO

O propósito deste estudo é vermos a História dos judeus e Efraimitas que criam em Yahushua, durante o período de 35 a 150 DC (aproximadamente), ou seja, dos primeiros crentes, de suas crenças e práticas, e o seu relacionamento com os judeus tradicionais e posteriormente com as congregações dos gentios. Há muita coisa que não iremos ver porque você pode ler diretamente no livro de Atos, apesar de comentarmos algumas das coisas que estão ditas lá.
2 – OS SEGMENTOS DO JUDAÍSMO NO 1º SÉCULO

Sabemos dos historiadores, das profecias de Daniel, dos Targum (interpretações do Tanach em Aramaico), etc. que muitos dos judeus no tempo de Yahushua estavam aguardando pelo messias. Havia muitos segmentos do Judaísmo, melhor conhecidos como Fariseus, Saduceus, Essênios (zadoquitas) e Zelotes – e todos estes grupos tinham muitos subgrupos (aproximadamente 24-40 de acordo com os historiadores). Cada grupo possuia suas doutrinas distintas e o Judaísmo era muito mais diversificado do que nos séculos posteriores. Eles tinham diferentes ideias sobre como observar a Torah (as Leis do Criador YAH), sobre a inspiração do restante das Escrituras e sobre livros que não se encontram no Tanach (Primeiro Testamento), sobre o calendário, sobre o Messias, sobre a ressurreição, etc. Eles frequentemente perseguiam uns aos outros, e às vezes se uniam para lutar contra um inimigo externo comum. Todos eles, contudo, aceitavam os outros como sendo parte legítima do “Judaísmo”, e não de religiões diferentes. Os judeus que acreditavam em Yahushua como Messias eram um destes segmentos, totalmente aceito como parte do Judaísmo tradicional da época.
3 – OS SEGUIDORES DE YAHUSHUA

O nome mais antigo pode ter sido “discípulos do Caminho” (Atos 19:9, 24:14). É este o nome usado por Sha’ul (o apóstolo Paulo). Eles por fim se tornaram mais conhecidos como os Nazarenos (Atos 24:5). Normalmente os nomes são dados por terceiros. A palavra “nazareno” no hebraico é “notzrim”. Esta palavra não vem do voto de Nazireu (como o de Sansão) nem tampouco se refere a alguém de Nazaré. Muitos estudiosos acreditam que venha da palavra ”netzer”, que quer dizer ramo. Muitas das profecias sobre o Messias (Isaías 11:1 por exemplo) usam a palavra Netzer ou ramo para se referir ao Messias. Pode ser que muitos dos crentes em Yahushua citavam estes versos com frequência e se tornaram conhecidos como “o grupo do ramo”, e por fim como Notzrim. Pode também ser que esta palavra venha de uma fonte desconhecida. A palavra “cristão” aparece em Atos 11:26, 26:26 e em 1 Pedro 4:16, mas inicialmente era considerada uma palavra ofensiva usada para se referir aos crentes em Yahushua. Eles normalmente não se chamavam de “cristãos” até cerca de 180 DC, numa época em que já eram um grupo totalmente diferente daquele de Atos.

4 – OS CONFLITOS ENTRE OS SEGMENTOS

Assim como entre outros grupos do Judaísmo, havia conflitos ocasionais entre os Nazarenos e outros segmentos do Judaísmo (assim como ainda ocorre hoje em dia entre diferentes segmentos do Judaísmo ou até mesmo entre diferentes segmentos do Cristianismo). Em alguns momentos havia muita violência (assim como hoje em dia – veja a Irlanda do Norte). No período de aproximadamente 25 anos que são relatados no livro de Atos, se estudarmos a congregação nazarena (a principal delas, em Jerusalém), vemos 5 conflitos relatados com outros segmentos do Judaísmo (5 em 25 não é tanto assim). Se o leitor for familiarizado com o Judaísmo tradicional, perceberá que isso é comum (veja Hillel e Shammai por exemplo). Estes desentendimentos eram dentro do Judaísmo – ninguém estava dizendo que os Nazarenos não eram uma parte legítima do Judaísmo. Assim como Yahushua discutia com os Fariseus, o que também eram discussões internas e Ele era duro com eles por sentir que eles eram teologicamente capazes de entender suas colocações. Vamos olhar rapidamente para dois destes conflitos em Atos para ter uma percepção melhor.

5 – EXEMPLOS DE CONFLITOS COM OS NAZARENOS

Primeiramente leia Atos 3:1-16. Vemos que Kefa (Pedro) e Yochanan (João) no Templo. Por que estavam lá? Era hora do “daven mincha” (serviço da tarde) e eles eram judeus observantes. Havia um homem aleijado no portão. Por que? Porque ele não podia ir para dentro do Templo, pois as pessoas aleijadas não eram permitidas entrarem lá de acordo com a Torá. Não sendo permitido a ele entrar, ele ficou o mais próximo que pôde. Eles o curaram e a primeira coisa que ele fez foi entrar no Templo para expressar o seu amor elo Criador YAH e mostrar às pessoas (possivelmente ao sacerdote). As pessoas viram o milagre e Kefa (Pedro) usou a oportunidade para falar de Yahushua. Até então, não havia problema. Vamos continuar e ler Atos 4:1-2. Por que os sacerdotes e os saduceus ficaram irritados? Ficaram irritados porque Kefa e Yochanan pregaram a ressurreição dos mortos, que é uma doutrina que os saduceus (e os sacerdotes também eram saduceus) não aceitavam. Posteriormente, eles o soltaram. Esta foi uma discussão teológica sobre a ressurreição. Os Nazarenos não estavam pregando uma nova religião; ainda era o Judaísmo. Se os fariseus tentassem ensinar sobre a ressurreição dentro do Templo, provavelmente a mesma coisa teria acontecido. Vamos agora olhar para outro conflito. Primeiro leia Atos 5:12-17. Mais uma vez, temos prisões por parte dos saduceus. Desta vez, no entanto, eles foram levados ao Sanhedrin (o Sinédrio), que continha tanto fariseus quanto saduceus. Vamos ler os versículos 29-40. Quem estava do lado deles? Um fariseu! Ele acreditava na ressurreição. A ressurreição era o problema (veja versículo 30). Eles não foram acusados de começar uma nova religião, caso contrário os fariseus teriam se unido aos saduceus. Estava tudo, novamente, dentro do contexto do Judaísmo.

6 – OS GENTIOS (EFRAIMITAS) E OS NAZARENOS

A medida em que lemos Atos, vemos Sha’ul (Paulo) indo através da Diáspora basicamente pregando em sinagogas para congregações mistas, contendo tanto judeus quanto gentios que eram tementes ao Criador. Houve um desentendimento sobre o quanto da Torah aqueles gentios deveriam observar inicialmente para serem admitidos no convívio dos crentes, onde aprenderiam mais. O conselho em Atos 15 tomou uma posição bastante tolerante, que permitiu que mais gentios entrassem no convívio dos crentes (interessantemente, 250 anos depois, Roma tomou uma posição intolerante quando disse que judeus que cressem em Yahushua deveria deixar a Torah de lado para serem “verdadeiros” crentes). Cerca de 70 DC, o número de gentios crentes em Yahushua provavelmente já ultrapassava o de judeus.

7 – AS CRENÇAS DOS NAZARENOS DO 1º SÉCULO

Mas vamos voltar um pouco. No que cria este segmento do Judaísmo chamado de Notzrim?

  1. A) Assim como o Farisaísmo, eles criam no Messias, na ressurreição, anjos, espíritos, HaSatan, e no “sobrenatural”.
  2. B) Eles frequentavam sinagogas, o Templo, e ainda faziam o voto de Nazireu, inclusive os sacrifícios previstos, e guardavam as comemorações bíblicas.
  3. C) Eles aceitavam a Torah e a obedeciam. Eles também criam nos outros livros do Tanach (A.T) e nas Escrituras do Brit Hadasha (o “Novo” Testamento) a medida em que se tornavam disponíveis (é importante ressaltar que eles as entendiam em seu contexto judaico original).
  4. D) Eles aceitavam os costumes do Judaísmo. Estamos nos referindo à palavra grega “ethos” que está relacionada à TORÁ de Moisés (Atos 6:14, 21:21)
  5. E) Eles nem sempre aceitavam as tradições (paradoses no grego) ou Halachah (decisões referentes a tais tradições) dos fariseus.
  6. F) Eles evangelizavam tanto judeus quanto gentios (alguns segmentos dentro do Farisaísmo também faziam a mesma coisa).
  7. G) Eles acreditavam que Yahushua era o Messias, da essência de YAH, e perpetuo. Todas essas crenças cabem perfeitamente no Judaísmo como um todo.

8 – OS LÍDERES ATRAVÉS DO TEMPO

Este segmento frutificou e muitos judeus e gentios se tornaram parte dele (Atos 6:7). Dentre estes provavelmente haviam sacerdotes essênios/zadoquitas, pois eles também criam na ressurreição (Atos 21:20). A maioria dos primeiros crentes gentios eram pessoas tementes ao Criador que haviam ouvido a Sha’ul (Paulo) pregar nas sinagogas (Atos 17:1-4, 18:4, etc.) Agora vamos para próximo de 60 DC. Ya’akov (Tiago), irmão de Yahushua, era o líder dos Nazarenos e foi provavelmente 20 anos ou mais. Em 62 DC, de acordo com Josephus (conhecido historiador judeu), Ya’akov (Tiago) foi preso pelo sacerdote chefe (um saduceu) em uma época em que não havia governador romano em Jerusalém. O sacerdote chefe o atirou de um pináculo do Templo e, como ele não morreu, o espancou até a morte. Ya’akov (Tiago) era muito respeitado mesmo dentre aqueles que não criam em Yahushua. Ele passava muito tempo no Templo orando. Quando o novo governador veio a Jerusalém, a morte de Ya’akov foi protestada. Mas por quem? Pelos fariseus! Eles teriam feito isso se ele não fosse parte do Judaísmo, mas ao invés disso fosse parte de uma nova religião herética? Claro que não! A morte dele foi um duro golpe para a comunidade dos Nazarenos porque ele havia sido o seu líder por muito tempo. Ele foi substituído por um primo de Yahushua – Shimon Ben Clofa – que foi escolhido pelos anciãos. Ben Clofa serviu a comunidade por cerca de 50 anos. Nos últimos 18 anos antes da rebelião de Bar Kochba (ou seja, dos judeus contra Roma, descrita abaixo), os Nazarenos tiveram cerca de 13 líderes diferentes (todos judeus). Depois de Bar Kochba, os gentios (efraimitas) passaram a liderar o grupo dos crentes em Jerusalém.

9 – A REBELIÃO DOS JUDEUS CONTRA ROMA

Em 66 DC tivemos a rebelião contra Roma. Os crentes em Yahushua podem ou não terem se envolvido. Os historiadores ainda não sabem isso ao certo. O que nós sabemos é que os crentes em Yahushua receberam a revelação (uma fonte diz que foi diretamente de Yahushua e outra de que foi através de um mensageiro-”anjo”) de que Jerusalém seria destruída e que eles deveriam ir para Pella. Este foi o segundo aviso, o primeiro tendo sido em Mateus 24:15-16. Pella era uma cidade na Decápolis (atualmente é parte da Jordânia). Era uma cidade grega aproximadamente 24 Km do sul do Mar da Galileia, bem próxima a Skitópolis, que atualmente é chamada de Bet Shean. Sabemos que Yahushua havia passado por lá, pois era a principal estrada da Galileia para Jerusalém se não passarmos por Samaria. Sabemos ainda que Yahushua pregou na Decápolis, e que Pella tinha uma população judaica considerável e que era a intercessão de grandes rotas de comércio. Foi provavelmente naquela época que Ele pregou em Pella e em 66 DC já havia por lá uma comunidade de Nazarenos. Sabemos que a maior parte dos Nazarenos em Jerusalém, durante a revolta, conseguiram escapar para Pella. Depois da guerra, muitos voltaram a Jerusalém. Alguns ficaram em Pella, outros se mudaram para outros locais. Alguns estudiosos dizem que Apocalipse 12:1-6 é sobre a luta em Pella e que os Nazarenos são identificados ao final do versículo 17. Os Nazarenos continuaram a observar a Torah, mas não necessariamente da forma farisaica.

10 – A AUTORIDADE DADA POR YAHUSHUA

Vamos olhar para Mateus 16:19: “Eu lhe darei as chaves do Reino dos céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.” Sabemos que a palavra “ligar” é um idioma hebraico para proibir, enquanto “desligar” é um idioma hebraico para permitir. Este verso não tem nada a ver com guerra espiritual, como é usado frequentemente hoje em dia. Yahushua estava dando aos discípulos a autoridade para fazer a sua Halachah (decidir sobre formas de se cumprir a Torá). Em outras palavras, as decisões teológicas que eles tomassem seriam aceitas nos céus. A Torah tem instruções do Criador para o Seu povo, mas muitas vezes não menciona os detalhes. Como devemos guardar o Shabat (exemplo: podemos dirigir?) ou como fazer o Pesach (a “páscoa” judaica)? Como tornar a carne pura para comer? Existem centenas de perguntas como esta. Como resultado destas perguntas, os fariseus (e outros) desenvolveram um sistema de tradições orais que eram bem elaboradas sobre como fazer estas coisas. Algumas de suas tradições (Halachah) eram excelentes, algumas eram neutras, e algumas eram tão excessivas que violavam a letra e/ou o espírito dos mandamentos (mas isto é outro assunto…). Os Nazarenos rejeitaram os rabinos (a Halachah farisaica) como autoridade final para fazer a sua Halachah. Eles adotaram algumas delas, mas rejeitaram algumas e fizeram outras próprias deles. Eles fizeram isso porque:

1) Yahushua deu a eles autoridade para fazê-lo (Mt. 16:19),

2) Yahushua e os discípulos nem sempre concordavam com a tradição oral (Mt. 15:1-11, Mt 12:1-8, etc.)

3) Yahushua havia prometido dar a eles o Ruach HaKodesh (Sopro do Separado) para ajudá-los a tomar tais decisões (João 16:13, etc.)

 

11 – O JUDAÍSMO APÓS A REBELIÃO

Os Nazarenos não deixaram o Judaísmo. Eles continuaram a observar a Torah, mas nem sempre da mesma forma que os fariseus e os outros segmentos. Com a destruição do Templo em 70 DC, os saduceus deixaram de existir, assim como os essênios (a comunidade de Quram também foi destruída). Os únicos grupos remanescentes do Judaísmo eram os fariseus e os nazarenos.

12 – AS SEMENTES DO JUDAÍSMO ORTODOXO

O que estava acontecendo com os Fariseus? O líder do grupo durante 66-70 DC era Yochanan Ben Zakai. Ele também viu que a destruição de Jerusalém era iminente e escapou com muitos de seus discípulos. Ele se escondeu dentro de um caixão e eles o levaram para fora de Jerusalém para fazer o “seu funeral”. Naquela época, os romanos deixavam os judeus saírem. Porém, os zelotes não estavam os deixando sair, pois precisavam de ajuda para lutar contra Roma, então Yochanan pôs este plano em ação. Depois de sair de Jerusalém, ele foi até o governador Vespasiano. Conta a História que ele se dirigiu a Vespasiano como “imperador”, e antes que Vespasiano pudesse corrigi-lo, um mensageiro entrou e disse que o imperador havia morrido e que Vespasiano era o novo imperador (esta é uma versão abreviada da história). Yochanan ganhou o favor de Vespasiano, que o deixou ir para Yavneh, na costa, e lá começar uma escola de estudo da Torah.

13 – RAV. AKIVA CRIA O JUDAÍSMO MODERNO

Antes de 70 DC, havia muito mais judeus e eles podiam se dar ao luxo de permitir diversos segmentos e opiniões. Com o número de judeus drasticamente reduzido e o Templo destruído, Yochanan achou que para que o Judaísmo sobrevivesse eles precisavam se unir (será que podemos aprender com isso?). Eles achavam que precisavam começar a codificar as tradições orais e concordar em teologia e doutrina. Isto levou muitos anos e houve muitas brigas uma vez que haviam muitas crenças em meio aos fariseus. A maior briga foi talvez entre Gamliel II e Rabi Akiva, no início do segundo século. Gamliel II achava que o Farisaísmo precisava apenas de umas mudanças pequenas, enquanto Akiva achava necessário criar um sistema que desse todo o poder e autoridade aos rabinos. Akiva então trouxe a doutrina de que a lei oral foi dada ao mesmo tempo que a Torah, e que Moisés, David, etc. eram rabinos. Ele ganhou a disputa com Gamliel em uma batalha que foi bem feia e cheia de malícia de ambos os lados. Com Akiva no comando, finalmente eles decretaram que os rabinos poderiam mudar a Torah se necessário e que a maioria dos rabinos (todos partidários de Akiva) poderiam até sobressair à Bat Kol (voz de YAHUAH). Eles criaram uma nova tradução para o grego do Tanach para substituir a Septuaginta e um novo Targum Aramaico (Onkelos), ambos os quais estavam mais de acordo com a teologia de Akvia. Eles não podiam mudar a versão hebraica mas os comentários deles sobre a suposta lei oral e o Tanach tornaram-se a autoridade final. Eles podiam descartar decisões rabínicas das quais eles não gostavam. O resultado disto é o Judaísmo Ortodoxo de hoje. (Esta é a principal razão pela qual precisamos de um grupo SEPARADO de rabinos messiânicos observantes da Torah para a nossa Halachah. Sem a Halachah, pode haver muita confusão e a Halachah Ortodoxa tem muitos problemas).

14 – OS FARISEUS E OS NAZARENOS

Recapitulando, os fariseus estavam em Yavneh e os nazarenos em Pella. O cisma antes era apenas uma discussão interna. Agora estavam se distanciando de forma considerável e uma ruptura total era inevitável. Os rabinos de Akiva começaram a trazer novas regras e teologia. Isto era em parte necessário para que tivessem o Judaísmo sem o Templo e os sacrifícios de sangue. Antes do Templo ser destruído, a Escola Farisaica de Shammai (com quem Yahushua tinha grandes discordâncias) predominava. Em Yavneh eles decidiram que, dali em diante, a Escola de Hillel predominaria. Os sacrifícios foram substituídos por orações e atos de caridade. É claro que nem todas as decisões deles foram ruins. Eles tinham uma tarefa difícil, havia conflitos de poder e muitas decisões foram problemáticas. Os nazarenos que anteriormente eram basicamente tolerados (embora, é claro, houvesse algum conflito) agora eram vistos como uma grande ameaça à unidade e sobrevivência do “Judaísmo” porque eles não aceitavam a autoridade final dos rabinos fariseus. Além disto, o grande número de gentios (Efraimitas) que estavam se juntando aos nazarenos era considerado problemático. Havia muitas regras a se considerar. Sem um Templo, toca-se o shofar no Yom haKipurim e no Rosh HaShanah? Anteriormente, isto só era feito no templo. Leva-se luvav para fora de Jerusalém no Sukot? Haviam centenas de decisões como estas a serem feitas e os fariseus queriam que elas fossem feitas para todos dentro do Judaísmo.

 

 

15 – A CRESCENTE SEPARAÇÃO

Voltando para 80-90 DC, em muitos lugares os nazarenos ainda estavam adorando ao Criador YAHUAH nas sinagogas, juntamente com os fariseus, e novamente foram considerados uma ameaça. Para remediar a situação, os fariseus adicionaram a 19a. “bênção” na Amidah. Foi inserida como a de número 12 e foi chamada de Birkot HaMinim. Não era universalmente praticada em todas as sinagogas, mas era uma “bênção” contra os minim e dizia algo do tipo:

“Que os sectários e os nazarenos morram em um instante se não retornarem para Ti e para a Tua Torah. Que eles sejam apagados do livro da vida e não inscritos entre os justos.”

Ora, os nazarenos obeciam sim a Torah, só que não da maneira farisaica. Esta “bênção” foi inserida para separar os nazarenos do Judaísmo tradicional. Ao contrário do restante da Amidah, que era feita silenciosamente e de forma bem suave, esta “bênção” tinha que ser recitada em alto e bom som. Se você fosse um nazareno, as suas opções eram deixar a sinagoga ou amaldiçoar a si mesmo. Isto, é claro, separou os nazarenos dos fariseus ainda mais, mas até um certo ponto ainda havia diálogo entre eles até a metade do segundo século e alguns deles podem ser lidos no Talmude. Entre a destruição do Templo em 70 DC e a revolta de Bar Kochba cerca de 135 DC, o cisma entre os fariseus e os nazarenos continuou a crescer (lembre-se que eles eram os dois únicos grupos que haviam restado no Judaísmo). A “bênção” Birkot Ha-minim também causou outros problemas para os crentes em Yahushua. O Judaísmo era uma religião permitida por Roma. Os Romanos permitiam que eles não trabalhassem no Shabat e os eximiam de fazerem sacrifícios a César (em troca eles faziam sacrifícios por César). Os nazarenos, é claro, estavam entre os judeus. Os gentios que se juntavam aos nazarenos ainda eram vistos por Roma como gentios, a não ser que eles fizessem uma conversão total ao Judaísmo (o que dificilmente acontecia e não era necessário).

16 – INÍCIO DO ANTI-SEMITISMO DE ROMA

Roma viu a expulsão dos nazarenos das sinagogas com grande suspeita. Frequentemente os privilégios eram removidos. Portanto, as pessoas tinham que se esconder, aceitar punições, oferecer sacrifícios a César ou, se fossem gentios, mentirem dizendo que eram judeus. Roma nunca aceitaria uma nova religião. Alguns gentios mentiam e diziam que eram judeus (vide advertência em Apoc. 2:9 e 3:9). Aqui fica um pequeno parêntesis: Não diga que é judeu se você não é. O Criador ama judeus e gentios igualmente. Dizer que é judeu quando não é judeu é um mal testemunho para os judeus seculares. Além disto, por causa da quantidade de gentios crentes em Yahushua, alguns de seus costumes pagãos começaram a se infiltrar entre os crentes (isto pode ser observado nas cartas de Paulo e em alguns escritos antigos como o Didache, escrito cerca de 96 DC). Alguns destes crentes gentios tentaram convencer a Roma de que eram os sucessores do Judaísmo e que, por isso, deveriam ter os mesmos privilégios que os judeus. Eles diziam que eram os verdadeiros herdeiros do Judaísmo. Foi aí que começaram a surgir (embora consolidados com mais força na época de Constantino) as primeiras sementes da satânica Teologia da Substituição e do anti-semitismo entre os seguidores de Yahushua.

17 – A CARTADA FINAL DE RAV.AKIVA

Em 135 DC, temos a rebelião de Bar Kochba contra Roma. Rabi Akiva declarou que Bar Kochba era o messias (alguns dizem que isto foi para fazer a cisão final com os nazarenos, pois os mesmos lutariam sob a bandeira de um messias diferente). Muitos fariseus também não aceitavam Bar Kochba como messias, mas ainda sim, muitos lutaram (uma vez que não tinham Yahushua como Messias). Durante aquele período, os rabinos declararam que a leitura de qualquer livro minim (incluindo o que é hoje o Novo Testamento) tornava uma pessoa impura e que os livros deveriam ser queimados. Akiva disse que aqueles que lessem os livros minim não tomariam parte no mundo vindouro (apesar disto contradizer a própria Mishnah judaica). Até mesmo os rolos da Torah que fossem escritos pelos minim eram considerados dignos de serem queimados. A separação estava concluída. Curiosamente, depois de Bar Kochba, os judeus foram barrados de Jerusalém com exceção do dia 9 de Av, quando eles podiam retornar para lembrar com solenidade a destruição do Templo. Roma ainda considerava os nazarenos como judeus e os deixava entrar.

18 – OS PRIMEIROS PASSOS EM DIREÇÃO AO CATOLICISMO ROMANO

Depois daquela época, a “igreja gentílica” foi se tornando cada vez mais híbrida, tendo conceitos judaicos misturados com paganismo, até chegar à Igreja Romana tal qual a conhecemos. O que eles pensavam dos nazarenos? Os nazarenos aceitavam a divindade, o nascimento virginal e a pré-existência de Yahushua. A igreja, porém, dizia que eles não eram “crentes verdadeiros” porque apesar de crerem em Yahushua, o fato de que guardavam a Torah invalidava a crença em Yahushua. Por outro lado, os rabinos agora denunciavam o paganismo da igreja gentílica. Não há nada no Novo Testamento que diga que os judeus devam deixar de guardar a Torah. Na realidade, diz exatamente o oposto. Paulo, se estudado através do livro de Atos, foi um judeu observante da Torah (Atos 28:17), frequentador de sinagogas (Atos 13, 14, etc.), fazia votos da Torah (Atos 18:18 e 21:24), observava as comemorações (Atos 20:6,16) e sacrifícios de oferta e de votos (Atos 21:26) e continuou a fazer tais coisas por toda a vida. Mesmo que muitos distorçam o contexto de suas palavras (2 Pedro 3:14-16), suas cartas foram escritas em sua maioria para os gentios (efraimitas). Alguns dos supostos “pais” da igreja romana disseram que Pedro, Tiago, João, etc. não observavam a Torah, apenas fingiam a observância para converter os judeus. Isto soa pior do que o que diziam os rabinos, e foi escrito por Jerônimo a Agostinho no século 5. Várias tentativas de se estabelecer quando foi supostamente extinto o grupo dos nazarenos já foram feitas. Começou-se dizendo que no século 4, depois disseram que foi entre os séculos 4 e 10. Hoje já há evidências de sua existência no século 13. Na realidade, cremos que nunca foi extinto e que sempre houve um remanescente que “guarda os mandamentos de Elohim e exerce a fé em Yahushua” (Apocalipse 14:12). Que nós possamos fazer parte deste remanescente.

QUEM ERAM OS NETSARIM?

Atualmente, muitas pessoas acham que, no primeiro século, todos os discípulos de Yahushua eram chamados de “cristãos”, e que estes criaram uma nova religião, chamada de Cristianismo. Lindo engano. Inicialmente, todos os discípulos de Yahushua eram conhecidos como netsarim (nazarenos), conforme o texto de Atos 24:5. Tanto judeus quanto gentios estavam unidos em um só corpo, alcunhados de netsarim. E na cidade de Antioquia é que os discípulos foram chamados de “messiânicos” pela primeira vez (Atos 11:26), (e não cristãos) e isto por volta dos anos 40 a 60 E.C [1]. Enquanto em Antioquia os seguidores do Messias foram apelidados de “messiânicos”, em todos os outros lugares se manteve o nome original: netsarim (nazarenos). Segundo as lições do erudito Ray A. Pritz, da Universidade de Jerusalém, judeus e gentios crentes em Yahushua eram conhecidos como “nazarenos” (netsarim), e somente muito tempo depois houve uma distinção terminológica entre nazarenos e messiânicos (Nazarene Jewish Christianity, The Magnes Press, The Hebrew University, 1992, páginas 15 a 17). Se no passado judeus e gentios eram chamados de “nazarenos” (netsarim), esta situação mudou e se passou a fazer a seguinte diferenciação de nomenclatura:

1) os netsarim (nazarenos), que eram judeus crentes em Yahushua HaMashiach (hebraico: netsarim; aramaico: natsraya = nazarenos);

2) os messiânicos, setor constituído por gentios crentes em Yahushua.

Netsarim (nazarenos) e messiânicos estavam unidos e tinham plena comunhão, frequentando sinagogas, já que até então ainda não existiam as “Igrejas”.

Em Ma’assei Sh’lichim (Atos dos Emissários-Apóstolos), capítulo 15, há uma discussão acerca do relacionamento entre gentios e judeus. Na ocasião, Ya’akov (Tiago) estabelece uma série de recomendações aos gentios e prescreve:

“Porque Moshé [Moisés], desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem o pregue, e, em cada shabat [sétimo dia], é lido nas sinagogas.” (Atos 15:21).

No texto transcrito, identificam-se três importantes dados: 1) judeus e gentios se reuniam em cada shabat (sétimo dia); 2) eles estudavam a Lei (Torá) de Moshé/Moisés; 3) estavam reunidos nas sinagogas (e não nas igrejas). Estes três elementos indicam que judeus e gentios praticavam o fé verdadeira na torá!!! O cristianismo, como se verá adiante neste livro, foi difundido por Inácio de Antioquia (o “Santo” Inácio católico) e é contrário às primeiras práticas dos emissários (“apóstolos”) de Yahushua. Eis o Cristianismo de Inácio: 1) determina a reunião no domingo; 2) ensina que a Lei (Torá) de Moshé (Moisés) foi abolida pelo Novo Testamento; 3) ordena a reunião em Igrejas. Estes três ensinos são totalmente antagônicos àquelas 3 (três) características extraídas de Atos 15:21, conforme visto no parágrafo anterior. Curial sublinhar: tanto os primeiros emissários (“apóstolos”) quanto os primeiros discípulos de Yahushua foram judeus, ingressando posteriormente na comunidade os gentios/Efraimitas, e todos eles eram chamados de netsarim (nazarenos). Somente tempos depois, conforme Atos 11:26, os discípulos gentios passaram a ser chamados de “messiânicos” por aqueles que falavam outros idiomas. Nazarenos e messiânicos estavam unidos e praticando a fé hebraica ensinado por Yahushua, razão pela qual se congregavam em cada shabat (sétimo dia) para estudar a Torá (“Lei”) de Moshé (Moisés) nas sinagogas (Atos 15:21). Provar-se-á, aqui e agora, que biblicamente os talmidim/discípulos de Yahushua eram conhecidos como netsarim (nazarenos). Quando Sh’aul (Paulo) estava sendo acusado perante o Governador Félix, seus inimigos formularam a seguinte acusação:

“Descobrimos que este homem [Sh’aul/Paulo] é uma peste. Ele é um agitador dos judeus pelo mundo todo. É o líder da seita dos NETSARIM [NAZARENOS].” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 24:5).

Sha’ul (Paulo) rebateu a acusação de que seria um agitador, porém, não negou que seria um dos líderes do grupo conhecido como Netsarim (Nazarenos) ou o Caminho:

“Entretanto, isto eu [Sh’aul/Paulo] admito: adoro o Elohim de nossos pais, de acordo com o Caminho (ao qual eles chamam seita). Continuo a crer em todas as coisas de acordo com a Torá [Lei] e todos os escritos dos Profetas.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 24:14).

Antes de Sha’ul (Paulo) reconhecer que Yahushua é o Mashiach, perseguia os discípulos do Salvador, conhecidos como membros “do Caminho”:

“Sha’ul [Saulo/Paulo], respirando ainda ameaças de morte contra os discípulos do Adon Messias, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damesek [Damasco], a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levassem presos para Jerusalém.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 9:2).

Logo, verifica-se que os primeiros discípulos de Yahushua eram chamados de netsarim (nazarenos) ou simplesmente membros do Caminho (At 9:2, 24:5,14 e 19:9,23). A este respeito, relata o rabino James Scott Trimm:

“O termo ‘o Caminho’ é usado para descrever os crentes em Atos 9:2 e em Atos 22:4 (que na verdade recapitula os eventos de Atos 9:2). (…)

Este termo [‘o Caminho’] é usado como uma alternativa ao nome ‘Nazarenos’ em Atos 9:2; 19:9; 19:23; 22:4 24:5,14.” (Hebraic Roots Commentary to Acts, Worldwide Nazarene Assembly of Elohim, 2010, páginas 64 e 65).

Em Atos 24:5 e 14, os opositores de Yahushua diziam que os Nazarenos ou do Caminho representavam uma seita [2] do Judaísmo, porém, em verdade, os Nazarenos ou do Caminho é a fé escritural praticada pelos primeiros talmidim (discípulos) de Yahushua. Essa fé nada tem que ver com o atual Judaísmo rabínico, que é corolário dos ensinamentos da maioria dos p’rushim (fariseus), estes tão criticados por Yahushua. Importa consignar que os netsarim (nazarenos) formavam mais um dos tantos grupos existentes do “Judaísmo” do primeiro século, ou seja, não faziam parte do Cristianismo, que somente veio a surgir tempos depois e no ano 325 oficializado por Constantino. Confira o escólio do pesquisador e aramaicista Andrew Gabriel Roth:

“Netsarim é uma seita dentro da categoria mais ampla do Judaísmo.” (Aramaic English New Testament, Netzari Press, 4ª edição, página 380).

A História comprova que, no período do Segundo Templo, a religião judaica, com seus inúmeros grupos e subgrupos, era conhecida como Judaísmo (ex: Gl 1:13 e 14), e os seguidores de Yahushua eram chamados de Netsarim/Nazarenos (At 24:5), ou “do Caminho” (At 9:2, 24:5,14 e 19:9,23). Destes dados históricos e bíblicos, extrai-se o nome “Judaísmo” Nazareno, ou “Judaísmo” do Caminho. Define-se “Judaísmo” Nazareno como o ramo do Judaísmo cujos ensinos, doutrinas e práticas foram vivenciados por Yahushua HaMashiach e seus primeiros talmidim (discípulos). Yahushua não veio para fundar uma nova religião, mas sim para ensinar a verdade de acordo com as Escrituras. Aquele que segue Yahushua HaMashiach deve vivenciar a verdade por ele lecionado, tomando muito cuidado com as atuais práticas do Judaísmo, visto que muitas delas estão impregnadas de elementos anti bíblicos. Muitas pessoas, quando descobrem que Yahushua era judeu e seguia e seguia a fé hebraica praticada pelos judeus da época, terminam por abraçar indiscriminadamente todos os costumes judaicos, sem maior análise crítica, o que é totalmente insensato. A uma, porque o Judaísmo moderno está distante daquele praticado pelos discípulos de Yahushua. A duas, porque o Judaísmo moderno está fundado no pensamento farisaico, fortemente combatido por Yahushua. A três, porque o Judaísmo moderno segue mais a tradição do que a própria Torá. A quatro, porque o Judaísmo moderno incorporou elementos e ritos pagãos. Tais críticas são estendidas a certos grupos (e não todos) do Judaísmo Messiânico, que não estão imunes de erros e, em muitos casos, preferem colocar os ensinos rabínicos acima das Escrituras. Por conseguinte, todos os estudos estão focados única e exclusivamente nas práticas bíblicas dos netsarim (nazarenos), os autênticos seguidores do Mashiach (Messias).

E OS CRISTÃOS, ONDE SE ENQUADRAM?

O texto em aramaico de Ma’assei Sh’lichim/Atos 11:26 é esclarecedor:

כַד אֵשׁכּחֵה אַיתּיֵה עַמֵה לַאנטִיָכִיַא ושַׁנתָּא כֻּלָה אַכחדָא כּנִישִׁין הוַו בּעִדּתָּא וַאלֵפו עַמָא סַגִּיָאא מֵן הָידֵּין קַדמָיַת אֵתקרִיו בַּאנטִיָוכִי תַּלמִידֵא כּרִסטיָנֵא

TRADUÇÃO:

“Tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela congregação e ensinaram muitas pessoas. Foi naquele tempo que os discípulos de Antioquia foram chamados pela primeira vez de Messiânicos”.

Há algo surpreendente na passagem transcrita: no meio do Manuscrito em aramaico aparece a transliteração da palavra messiânicos “Mashiachim”.  Em Antioquia, os discípulos gentios falavam grego e receberam o nome de “messiânicos”, que significa “aqueles que seguem o Mashiach (Messias)”. Por sua vez, a palavra grega “Cristo” significa “Ungido pela crista, raios solares= Paganismo”. Em conclusão, percebe-se que o vocábulo “messiânicos” foi originariamente aplicado aos seguidores gentios de Yahushua, falantes da língua grega, permanecendo o nome “netsarim” (nazarenos) para os discípulos judeus, que se comunicavam em hebraico ou aramaico.

Ministra Andrew Gabriel Roth:

“Os Shlichim/Apóstolos não chamavam a si próprios messiânicos. Os Shlichim eram membros do Caminho, designados de Netsarim (Atos 24:5,12-14). Os gentios em Antioquia foram cunhados com a palavra messiânicos, um termo puro para “messiânicos”.” (Aramaic English New Testament, Netzari Press, 4ª edição, página 338).

David Stern também reconhece que a palavra “messiânicos” foi usada apenas para os crentes gentios, enquanto os judeus eram conhecidos como “o Caminho”:

“Penso que o nome messianic [messiânicos] foi aplicado aos crentes gentios por não-crentes gentios. Por quê? Porque os messiânicos judeus teriam designado seus irmãos gentios de fé pelo mesmo termo que usavam para designar a si mesmos: “povo que pertence ao Caminho”.” (Comentário Judaico do Novo Testamento, editora Atos, 2008, página 291).

Logo, se inicialmente judeus e gentios eram chamados de netsarim, em momento posterior houve a distinção dos crentes em Yahushua: 1) judeus, chamados de netsarim (“nazarenos”) ou “do Caminho”; e 2) gentios, alcunhados de “messiânicos”.

No livro de Atos, nazarenos e messiânicos viviam em comunhão, sendo que a liderança era exercida pelos emissários (“apóstolos”), todos judeus, ou seja, nazarenos. Toda esta harmonia entre judeus e gentios chegou ao fim quando o gentio Inácio de Antioquia, não concordando com a liderança judaica dos nazarenos, criou uma rebelião nas congregações e dividiu os dois grupos, por volta do ano 98 D.C. A partir daí, Inácio afirma que os seguidores de Yahushua deveriam abandonar o Judaísmo, religião praticada pelos nazarenos, e seguir a religião por ele criada – o Cristianismo. A nova religião, o Cristianismo, começou a florescer no início do segundo século (concluído no ano 325) e culminou com a instituição da Igreja Católica Romana no século IV. Ora, se os netsarim (nazarenos) e os primeiros messiânicos eram adeptos da fé hebraica, conclui-se com facilidade que o Cristianismo, oficializado pelo Catolicismo Romano, não representa a religião praticada pelos originais seguidores de Yahushua. Por sua vez, o protestantismo e as atuais denominações evangélicas também não expressam a fé original (salvo raras exceções), visto que seguem inúmeras práticas e dogmas estabelecidos pela Igreja Católica, tais como:

1) a substituição do shabat (sétimo dia) pelo domingo;

2) a abolição das comemorações bíblicas (Vayikrá/Levítico 23), substituindo-as pelas festas pagãs (ex: celebração da páscoa em data coincidente com a páscoa católica, e não com a data determinada nas Escrituras; o Natal em 25 de dezembro, cuja origem está no paganismo, ressaltando-se que a Escritura não indica o dia de nascimento do Salvador);

3) a falsa ideia de que a “Torá-Lei foi abolida”;

4) a teologia da substituição, que defenda a substituição de Israel pela Igreja nos planos de YAHUAH.

5) Trindade doutrina de 3 deuses

Vamos parar por aqui, mas as denominações evangélicas seguem dezenas e dezenas de preceitos errôneos e que têm origem no Catolicismo Papal= Babilônia. Como asseverado linhas atrás, os nazarenos ou do Caminho eram praticantes da fé hebraica e assim permaneceram, não mudando a fé original, ainda que vitimizados pela rebelião gentílica de Inácio ao criar uma nova religião – o Cristianismo. Após esta rebelião e a separação entre judeus e gentios, os israelitas fiéis a Yahushua permaneceram com o nome de netsarim (nazarenos) ou do Caminho, enquanto os gentios mantiveram o título de messiânicos. No século IV, estruturou-se o Cristianismo e como religião oficial no ano 325 no concílio de Niceia por Constantino, ficando no lugar dos messiânicos (gentios crentes em Yahushua ligados a fé hebraica), por meio do Catolicismo Romano, ensejando perseguição a pessoas de outras crenças. Então, algo totalmente contraditório ocorreu: os gentios, que no passado eram amigos e liderados pelos nazarenos, uma parte se corromperam com a nova religião e começaram a persegui-los e exterminá-los, isto é, pessoas que se diziam discípulas de Yahushua (intitulados agora de cristãos) condenavam e martirizavam os nazarenos, os primeiros seguidores do Mashiach. Gentios assassinando os seguidores do Messias Yahushua em nome da nova religião! Os netsarim (nazarenos) foram muito perseguidos pelo Império Romano, que exterminou grande parte do grupo e de seus escritos, razão pela qual existem poucas fontes históricas subscritas pelos próprios nazarenos a respeito de si próprios, excetuando-se os Ketuvim Netsarim (Escritos Nazarenos, conhecidos incorretamente como “Novo Testamento”). Não obstante, além da descrição fiel dos netsarim (nazarenos) no “Novo Testamento”, há relatos históricos produzidos por seus inimigos, geralmente depreciando os discípulos de Yahushua. De qualquer forma, tais registros históricos são importantes para se entender quem eram, o que pensavam e como agiam os nazarenos. Epifânio de Salamina, um dos “Pais” da Igreja Católica que viveu no final do século IV D.C, escreveu uma obra em que criticou os nazarenos. Para Epifânio, os nazarenos seriam hereges. Contudo, sabemos com toda certeza que os primeiros discípulos de Yahushua não foram ímpios, mas sim homens tementes a YAHUAH. Eis o relato de Epifânio:

“Os nazarenos não diferem essencialmente dos outros [referindo-se aos judeus ortodoxos], pois praticam os mesmos costumes e as mesmas doutrinas prescritas pela Lei judaica [a Torá], com a diferença que eles [os nazarenos] creem no Messias [Yahushua]. Eles [os nazarenos] creem na ressurreição dos mortos e que o universo foi criado por Elohim. Eles afirmam que Elohim é Um, e que Yahushua o Messias [Yahushua HaMashiach] é Seu Filho. Eles [os nazarenos] são bem versados na língua hebraica. Leem a Lei [referindo-se à Lei de Moisés]. Eles são diferentes dos judeus e diferentes dos cristãos, apenas no seguinte: eles discordam dos judeus porque chegaram à fé no Messias; mas são distintos dos cristãos porque praticam os ritos judaicos da circuncisão, a guarda do sábado, e outros.” (Contra as Herezias, Panarion 29,7).

Verifica-se no texto que Epifânio faz uma diferenciação entre os nazarenos e os cristãos. Todavia, importante lembrar que Epifânio foi um dos grandes protagonistas do estabelecimento das doutrinas da Igreja Católica Romana no século IV. Assim, os cristãos, elogiados por Epifânio, eram aqueles que seguiam o Catolicismo Romano, enquanto os nazarenos (netsarim) eram aqueles que se recusaram a aceitar a autoridade da Igreja Católica gentílica. Interessante registrar que Epifânio considerava os nazarenos como hereges. Ora, será que um “pai” da Igreja Católica Romana tem autoridade para desmerecer os nazarenos, discípulos originais de Yahushua? Marcel Simon, especialista em História do Cristianismo no primeiro século, tece as seguintes considerações a respeito das declarações de Epifânio:

“Eles [referindo-se aos nazarenos] se caracterizam essencialmente por seu forte apego aos costumes judaicos. Se eles são hereges na opinião da Mãe Igreja [Católica], é apenas porque continuam apegados a ideias antigas. Eles [os nazarenos] representam, embora Epifânio categoricamente não admita, os verdadeiros e diretos descendentes da comunidade primitiva [dos apóstolos], a qual nosso autor [Epifânio] sabe muito bem que foi chamada com o mesmo nome dos Nazarenos.” (Judeo-messiânic, pg. 47-48).

Reflita sobre a assertiva transcrita acima: os nazarenos eram os “verdadeiros e diretos descendentes” dos apóstolos! Este é motivo pelo qual nós seguimos o Israelismo Nazareno ou Israelismo do Caminho: os nazarenos representam a fé original dos primeiros discípulos de Yahushua!!! Infere-se daí que os dogmas hoje reinantes em quase todos os setores do Cristianismo são falsos: 1) a substituição do shabat (sétimo dia) pelo domingo; 2) a abolição das comemorações bíblicas; 3) a instituição de festas pagãs (Natal, Ano Novo, etc); 3) a concepção de que a Lei (Torá) foi abolida; 4) o pensamento de que a Graça substitui a Lei (Torá); 5) a propagação de que a Igreja substituiu Israel nos planos de YAHUAH. Insta repetir: os nazarenos não fundaram o Cristianismo, visto que Yahushua não veio criar uma nova religião e nem faziam parte de judaísmo comumente ensinado. Confira-se o magistério do historiador Justo Gonzales em sua obra História do Cristianismo:

“… Não pensem que eles [os nazarenos] pertenceram a uma nova religião. Eles eram judeus, e a única diferença que os separavam do restante é que eles acreditavam que o Messias havia chegado, enquanto os demais judeus ainda aguardavam a vinda do Messias”.

Assim, se os nazarenos não instituíram uma nova religião, conclui-se que eles praticaram o a fé hebraica ensinada por Yahushua, conhecido como “seita” dos Nazarenos ou “o Caminho” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 24:5 e 14). Em vários artigos, demonstrar-se-á à luz das Escrituras como era o “fé hebraica na torá” pregada por Yahushua e praticado por seus emissários (“apóstolos”). Nosso objetivo é resgatar a pureza da fé escritural, revelando a verdade àqueles que buscam um relacionamento sincero com YAHUAH, através da aliança firmada conosco por Yahushua HaMashiach.

Seja bem-vindo à família dos Netsarim (“Nazarenos”)!!!

 

Referencias:

 

[1] Neste sentido, confirma Nazarene Jewish Christianity, de Ray A. Pritz, The Magnes Press, The Hebrew University, 1992, página 15, nota de rodapé nº 18.

[2] “Seita” tem o sentido de grupo ou facção. Assim, o Judaísmo Nazareno era um dos muitos grupos do Judaísmo.

 

Selá-Medite

 

 

 

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